12 de julho de 2010

A Musa Do Tecno Brega - Gaby Amarantos

Todo movimento recente da música popular brasileira gerou algum ídolo. O pagode, nos anos 80, lançou Zeca Pagodinho. A axé-music, dos anos 90, projetou Ivete Sangalo. Da música sertaneja vieram, na virada do século, Bruno & Marrone. Agora parece ser a vez do tecnobrega – um movimento musical nascido há dez anos na periferia de Belém. A estrela que desponta é Gabi Amarantos, ou melhor, Gaby, com y, também conhecida como Beyoncé do Pará.
O apelido não é casual. O próprio ritmo foi rebatizado: passou de tecnobrega, com a pecha de cafona, para tecnomelody. Os novos nomes (em marketing isso seria chamado de reposicionamento no mercado) ajudaram a música pop paraense a ganhar renome nacional – e mundial. As mudanças na carreira de Gaby Amarantos, de 31 anos, começaram em janeiro, quando ela aceitou o conselho de um numerólogo desconhecido e trocou o “i” de seu primeiro nome pelo “y”. “Nunca acreditei muito nessas coisas, mas lembrei que, toda vez que meu nome ganhava repercussão maior na imprensa, saía errado, grafado com ‘y’”, diz. Acaso ou não, a mudança deu certo. “Minha vida virou outra.”
Um mês depois, ela e sua banda, a Tecno Show, participavam de um dos mais importantes festivais de música do país, o recifense Rec Beat. De maiô preto e meia arrastão, ela subiu ao palco entoando uma versão em português do sucesso “Single ladies”, de Beyoncé. “Tô solteira” era apenas mais uma das dezenas de canções produzidas mensalmente pelos artistas de Belém. Ao reconhecer um dos maiores sucessos americanos dos últimos tempos misturado com a batida eletrônica do tecnobrega, o público de 30 mil pessoas – o esperado era de 3 mil – começou a gritar: “Gostosa! Poderosa! Beyoncé!” Ela diz: “Foi meu batismo. Virei a Beyoncé do Pará!”.
Gaby diz não ter se deslumbrado com a consagração temporária. “É um grande elogio, mas sei que pode ser uma armadilha”, afirma. “Tenho 15 anos de carreira e já escrevi mais de 300 músicas. Não sou cover de ninguém.” O carisma de Gaby levou a várias comparações. Além de Beyoncé do Pará, ela foi chamada de Madonna Ribeirinha e Lady Gaga da Amazônia. Os títulos a ajudaram a chamar a atenção de um público maior.

O apelido Beyoncé do Pará levou a produção do Domingão do Faustão a convidá-la para uma apresentação na TV, em maio. Foi um sucesso. A partir de então, ela foi chamada para tomar parte de quadros da MTV, apresentou-se no Rio de Janeiro e está num DVD de tecnomelody a ser lançado pela Som Livre. Seu cachê, antes de R$ 15 mil por show, dobrou. Agora, vai gravar um videoclipe. A música escolhida se chama “Galera da laje” e o vídeo terá como cenário seu bairro natal, Jurunas, em Belém. O bairro é conhecido pela alta criminalidade, mas, para a cantora, não poderia haver lugar melhor para sua formação. “O Jurunas é minha referência musical”, diz. Ali ela cresceu ouvindo Ella Fitzgerald, Billie Holyday, Reginaldo Rossi, Kaoma e Clara Nunes, entre outros. “No Jurunas, você acorda com os barzinhos tocando dor de cotovelo, aí passa um carro com batidão enquanto o vizinho coloca rock bem alto.”
Gaby começou a cantar na Igreja Católica na adolescência e chegou a pensar em se tornar freira. Sua voz e interpretação faziam tanto sucesso que as missas em que ela se apresentava se tornaram concorridas. Diz ela que os colegas, com inveja, a convidaram a deixar o grupo. Arrasada, foi se consolar no mesmo dia com uma amiga num bar. Um músico que estava no local convidou-a na mesma hora para formar uma banda. Ela aceitou. “Se eu não tivesse sido expulsa, estaria até hoje na igreja, cantando para Jesus”, diz.
Fora da igreja, Gaby foi exposta a um gênero que começava a se formar: o brega pop, com a introdução de riffs acelerados de guitarra no brega tradicional, feita por artistas como o guitarrista Chimbinha – que em 1999 se uniria à cantora Joelma para criar a banda Calypso. O êxito da dupla e de outras bandas do mesmo estilo coincidiu com a facilidade técnica de reproduzir CDs. Isso abriu espaço a um mercado independente das grandes gravadoras.
Os deputados paraenses propõem que o tecnobrega seja considerado patrimônio cultural
Perto do ano 2000, o brega passou a ser feito por músicos da periferia de Belém, quase sem instrumentos, só pelo computador. Nascia o tecnobrega, um desdobramento eletrônico do brega. Com batidas pegajosas e letras sobre amor, desilusões e festas típicas, o gênero logo virou febre na região, com a ajuda de um esquema de divulgação inovador. Depois de gravar uma música em computador caseiro, muitas vezes acompanhado de teclado e microfone de karaokê, o artista entrega a faixa de graça aos camelôs. Estes incluem a canção em coletâneas e as vendem no mercado informal. Além da divulgação em emissoras de rádio e televisão locais, a internet ajuda a espalhar a música. “Quando acabo de gravar, já coloco na internet para as pessoas baixarem e aviso em meu messenger”, afirma Gaby, que diz ter até 1.000 downloads de uma faixa nova em um único dia.

O faturamento dos artistas fica por conta de shows que mobilizam multidões de pessoas nas grandes cidades da Amazônia e hoje também no Nordeste. Organizadas por empresas chamadas aparelhagens (como Rubi e Super Pop), as apresentações contam com efeitos especiais, cenários extravagantes, pirotecnia e parafernália tecnológica. Essa estratégia de mercado, à margem das gravadoras, antecipou o que a indústria fonográfica de ponta foi obrigada a fazer: já que a pirataria corroeu os lucros das vendas de CD, o jeito foi direcionar os shows (e o merchandising) como principal fonte de receita.

Os artistas de Belém vivem da novidade (novos hits, grupos, batidas, cenários, rótulos). Hoje existem pelo menos 500 bandas profissionais em atividade. É o caso da banda AR-15, que em seus shows usa efeitos de luz e improvisação visual. Os sucessos que essas bandas produzem se sucedem em velocidade surpreendente. “Uma música dura no máximo dois meses”, diz José Roberto da Costa Ferreira, responsável pelo maior portal de música do Pará, o bregapop.com.br.
Gaby se adaptou perfeitamente a esse sistema. “Sou minha própria produtora, estilista, empresária, compositora e coreógrafa”, diz. Suas revoluções vão do palco ao salto. Ela acaba de montar uma miniaparelhagem para usar em suas apresentações. “Sou a única artista a ter minha própria aparelhagem”, diz. O salto da sandália do designer Jaime Bessa que ela costuma exibir é iluminado por lâmpadas LED. “Aqui, todo mundo ama um LED.” O calçado chamou a atenção de criadores de uma das mais badaladas marcas de sapatos do país, a mineira Arezzo.

Seu trabalho não ficou confinado às fronteiras do Pará. Em 2005, o antropólogo Hermano Vianna, percebendo o fenômeno, colocou Gaby Amarantos e a Tecno Show no programa Brasil total, apresentado por Regina Casé. No mesmo ano, o jornalista Peter Culshaw veio ao Brasil para escrever sobre o tecnobrega para o jornal inglês The Observer. Ficou impressionado. Comparou o som feito pelo Tecno Show ao do Depeche Mode, a banda eletrônica mais bem-sucedida do mundo.
Embora a elite paraense considere o tecnobrega um ritmo sem qualidade e acuse as festas de aparelhagem de focos de criminalidade, estudiosos da música afirmam que o Pará produziu a única linguagem eletrônica genuinamente brasileira. Há um mês, os deputados da Assembleia Legislativa do Pará aprovaram um projeto para transformar as aparelhagens e o tecnobrega em patrimônios culturais do Estado.

Segundo o produtor carioca Kassin, um dos mais atuantes no Sudeste do país, o valor do tecnobrega é similar ao do funk carioca e ao da cúmbia villera argentina. “Admiro esse tipo de movimento, que, apesar de levar muitas pessoas a festas todos os fins de semana, não depende de álbuns ou de gravadoras”, diz. “É como se fosse a nova música tradicional.” Ao lado de seu parceiro Berna Ceppas e de Miranda, Kassin deverá em breve participar da produção de um CD de Gaby.

Mas a valorização do tecnobrega, para Gaby, é coisa do passado. Ela está em outra. “Agora, o que está pegando é o tecnomelody”, diz. Musicalmente, a diferença entre os dois é nula. Mas o novo nome chama a atenção. Segundo Gaby, o tecnobrega se tornou tão acelerado que ficava difícil dançar em dupla. De volta a um compasso mais lento, o ritmo mudou de nome também com o intuito de se sofisticar, tornando-se mais aceitável para quem tem preconceito com o brega – assim como o novo apelido de Gaby, Beyoncé do Pará.

Fonte: MidiaNews